ESTETIZAÇÃO DE CANUDOS: A TRAGÉDIA ÉPICA, DE FRANCISCO MANGABEIRA, E A FORAGIDA DE MARES DE SOUZA
Pedro Barboza - UCSal
Já antes do surgimento da “heresia” canudense, a sociedade brasileira debatia-se entre um projeto de nação moderna de interesse maior de uma minoria ínfima, sonhando realidades locais à européia, e a base de sustentação real – uma população submissa, escravos negros e descendentes, em sua maioria, e brancos e miscigenados pobres..
Transformar o assunto canudiano em literatura é um projeto anterior à Guerra de Canudos, quando ainda eram esparsas as notícias sobre o movimento religioso dos beatos de Antônio Conselheiro. É mesmo no curso dos acontecimentos que começa a formar-se o que hoje podemos chamar relato canudiano. Por tal compreendo o conjunto de registros, práticas representacionais, seus textos orais e escritos, documentais e ficcionais sobre a matéria. Na verdade, há cento e vinte anos, vinte antes da Guerra, já circulavam quadras e benditos, documentados por Sílvio Romero, estes sob a ótica e voz dos beatos seguidores do Bom Jesus Conselheiro. (CALAZANS: 1984, 1) A narrativa de base oral, de grande importância na formação do relato, terá logo após desdobramento na história de matricídio envolvendo o pregador.
Contudo, a partir do surgimento de Os sertões, toda e qualquer leitura do conflito fica dominada pela voz de Euclides da Cunha.. Constituída a centralidade de Os sertões há o silenciamento de outras vozes e textos.
Variada foi a produção sobre o assunto, com aspirações literárias ou não, antes e depois do livro de Euclides. Com isso pretendo dizer que somente o entendimento de um Canudos não-euclidiano torna possível descortinar o quanto a “literatura de Canudos” ocluiu e como funcionou para recalcar as expressões dos vencidos, em função do citado projeto nacional. Refiro-me aqui apenas a dois textos esquecidos.
Em 1900, Francisco Cavalcanti Mangabeira publica, em Salvador, sua Tragédia épica: guerra de Canudos, datando o fim da impressão em 5 de outubro, terceiro aniversário do fim dos combates. Será reeditada em Poesias, livro póstumo, em 1906, e Poesias: nova edição, em 1928, A outra obra é A foragida: episódio da guerra de Canudos, de Mares de Souza, publicada em Alagoinhas, Bahia, em 1902, sem indicação de editor. Foi localizada pela Profa. Lizir Arcanjo, conforme anotação sem data de José Calazans. De seu autor pouco se sabe além um volume de poemas e dispersos em jornais interioranos, localizados pela mesma pesquisadora.
Já Mangabeira tem bem documentada sua curta existência. Aos dezoito anos, voluntário no Corpo Médico, estivera em Canudos por quase três meses. Publica poemas em jornais e revistas literárias, a partir dos catorze anos. Conclui seu curso em 1900. Milita no grupo literário baiano da Nova Cruzada, na condição de cavaleiro. Engaja-se como médico voluntário na campanha de anexação do Acre, para o qual compõe o hino. Ali adoece e morre a bordo, próximo a São Luiz, em janeiro de 1904, aos vinte e cinco anos. Sobre Mangabeira há alguma fortuna crítica. Na edição da Revista do Grêmio Literário em sua homenagem, José Veríssimo comentará seu livro Hostiário e Xavier Marques a Tragédia épica. No mesmo mês – fevereiro – também a Nova Cruzada lhe dedica a edição.
É citado e comentado por Pedro Calmon na sua História da literatura baiana. Andrade Muricy retomacitação de Sílvio Romero e comenta o poema “Os cães” da Tragédia épica. (MURICY: 1973, 116)) Terá como biocríticos Almachio Diniz e Jaime Sá Menezes. No que pese a extensão de Francisco Mangabeira: criação e crítica de Diniz, será José Paulo Paes que, em pequeno ensaio, sob o título de “Soldados e fanáticos, transcrito em Gregos e baianos, melhor abordará a produção do poeta. Bem percebeu a oposição entre “fanáticos e soldados”. Incorre, contudo, no deslize do uso euclidiano do termo “jagunço”, em lugar de “fanático”, escolhido por Mangabeira.
Os poemas de Mares de Souza e de Mangabeira são, pois, produzidos quase que simultaneamente, em localidades próximas ao conflito, a pouco tempo dele e, importa, antes do lançamento de Os sertões, ocorrido em fins de 1902. Convém destacar ainda as condições de elaboração das duas obras: A foragida, na interiorana Alagoinhas, e aTragédia épica, confeccionada na Imprensa Moderna, em Salvador, sendo a reedição feita no Rio de Janeiro.
Mangabeira já tinha publicado antes, tem vida literária em revistas de circulação ampla no país e no exterior, eivadas de francesismo e germanismos de produção local e de correspondentes. Freqüenta ambiente culto, que se relaciona com a moda cultural da capital federal, inclusive com críticos renomados. Filho de farmacêutico, era irmão de destacados políticos baianos, Octavio Mangabeira, futuro ministro e governador, e João Mangabeira, refundador do Partido Socialista. É diversa a sorte, da qualidade gráfica à circulação dos poemas do metropolitano e do interiorano.
O momento em que aparecem os dois poemas é aquele em que já não constituem segredo a degola e as atrocidades praticadas pelo Exército no sertão baiano, denunciadas desdo o fim da Guerra. Também já não há a animosidade jacobina contra os baianos, que se manifestara acusando-os de monarquistas. Haviam sido publicados Os jagunços de Afonso Arinos, no jornal “Commércio de São Paulo” e em edição de apenas cem exemplares, O rei dos jagunços de Manoel Benício, Descrição de uma viagem a Canudos, de Alvim Martins Horcades, A campanha de Canudos de Aristides Milton, o Libelo republicanode Cezar Zama, Última expedição a Canudos, de Dantas Barreto, para nos atermos aos textos de maior extensão, declaradamente ficcionais ou não. De 1902, será também A guerra de Canudos de Henrique Duque Estrada de Macedo Soares.
Não se deve desprezar o peso do texto euclidiano anterior ao livro. Jaime de Sá Menezes afirmará amizade entre Euclides e Mangabeira, não citando fontes. Também não há correspondência publicada entre os dois. Na Caderneta de campo há anotação de um endereço de “Mangabeira” (CUNHA: 1975, 119). Segura era relação entre Euclides e Pethion de Vilar, companheiro de Mangabeira na Nova Cruzada. Pethion (Egas Moniz Barreto d’Aragão) se oferecera para traduzir para o francês o livro de Euclides, assim que pronto, e trocaram correspondência sobre isso (GALVÃO: 1997, 119).
De que trata e como se compõe cada um dos livros?
A Foragida inicia com um “Preâmbulo” que discorre sobre uma estética romântica com ressaibos classicistas, para apresentar o poemeto. Este divide-se em duas partes: “O lar da caridade” e “A louca”. Estende-se por vinte e nove páginas, contando ao todo com cento e setenta e duas estrofes. As estrofes variam de quatro a dez versos com predominância de setissílabos e rimas pobres. Há ocorrência de decassílabos, muitos de “pé-quebrado”. A dicção é ingênua e marcadamente romântica, repisando ou parafraseando lugares comuns e figurações de Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu e Castro Alves. Trata-se de um poema narrativo. Conta a história de uma prisioneira de guerra, Maria. Vivera nas cercanias de Canudos, freqüentara as prédicas do Bom Jesus Conselheiro, até que chega a guerra. Fugindo do cerco, e esmolando, chega exausta à casa de um velhinho que a acolhe, a quem conta sua história. Tivera a sorte de escapar dos soldados “Seus patrícios, seus irmãos”. “Mas seu pai, guerra maldita!/ Com seu noivo foi pegado,/ Para ter o mesmo fado/ De outros pobres cidadãos. (SOUZA: 1902, 3). Em responsório, discorre sobre a excelência da vida no Arraial do Belo Monte. Atribui o móvel da guerra à desonra sofrida da esposa pelo Conselheiro. Nega a ocorrência de monarquismo em Canudos. Na conversa, descobre que o noivo policial, homônimo do velhinho era neto deste e ao ouvir seu nome, Assunção, enlouquece.
Na segunda parte – “A louca” – narram-se os desvelos do agora pai postiço com a ex-futura nora e os devaneios da louca. Surge um cabo com uma suposta carta de Assunção ao avô, pedindo entregar-lhe algum dinheiro com que compraria a soltura, num jeitinho brasileiro. O cabo ameaça matar a louca e desaparece com o dinheiro. Enquanto isso, Assunção consegue fugir com um amigo prisioneiro. Um lamenta a morte da noiva e o outro a da filha desaparecida. Já, o velho reza e ocorre um temporal. “O cabo invade o lar!.../ A moça corre,/ Por milagre de Deus, para seu quarto./ O dinheiro, a honra ou morre,/ Pois nunca ficarei de sangue farto/”. Meio à angústia do velho, entram na casa dois homens encapotados. Enxotam o desertor, não sem antes discursar, com detalhes, sobre as atrocidades cometidas contra os vencidos. O pai reconhece a filha, o ancião o neto. Maria recobra a razão e desmaia. Finaliza o poeta, sentencioso: “Veio enfim a salvação!/ Mas a nódoa negra, impura,/ Dessa guerra sem ventura,/ Dentre os povos a mais vil.../ É borrão que tisna a glória,/ Que envergonha a própria história/ Dos triunfos do Brasil!” ... “E hoje a Pátria chorando,/ Envergonhada de dor,/ Em cada pranto mostrando/ O seu cruel dissabor, De joelhos contristada,/ Já suplica amargurada,/ Para os ingratos perdão!/ Mas a História com justiça/ À Pátria diz injustiça!/ Para eles a maldição!”(Ib.: 26-28).
Já a Tragédia épica apresenta maior dimensão. Compõe-se de vinte poemas, à guisa de cantos, distribuídos em vários metros, com recurso constante à rima, mas sem sua observância irrestrita. Predomina o uso de decassílabos.
O poema não desenvolve uma seqüência narrativa explícita e, sim, alusões a episódios genéricos de guerra e a alguns próprios da de Canudos, identificáveis por quem tenha conhecimento prévio. São mais quadros descritivos e contemplações sobre os fatos de guerra que, mesmo quando particularizados, não têm seus atores investidos em personagens. Diria que é mais trágico, pelas situações expostas, que épico, pela ausência de um liame narrativo. Também são mais contemplações que dissertações lamentativas. Não se encontram na Tragédia épica heróis de nome e feições distintas, existem mais tipos sociais, tais com o soldado filho, o soldado noivo, o soldado nortista, o sulista, o gaúcho ou a vivandeira, ali fiel e caridosa.
Os títulos dos poemas oscilam entre as situações afetivas e a matéria heróica: “Adeus”, “Carta do soldado”, “Dolor”, “O batismo de sangue”, “O assalto à artilharia”, “A tomada da trincheira”, por exemplo. Almachio Diniz notará em “Os três oficiais” uma tripartição geográfica e social do país, atribuindo-a a uma duvidosa influência de Euclides jornalista. De fato, em sua leitura de 1929, Diniz vê a Tragédia épica pelas lentes de Os sertões. José Paulo Paes, por sua vez, indicará uma ‘eqüidade de enfoques” “narrativo e empático” no vencedor e no vencido, na simpatia bipartida entre o exército republicano e o “fanático”. A simpatia por este vai além da admiração do feito heróico, estendendo-se por uma visão sentimental bem marcada em (XV) “Os prisioneiros”, (XVII ´Crianças prisioneiras”, e (XVIII) “A caravana maldita”. (PAES: 1985, 115-123).
Convém realçar o vigor da ideologia poética de “religião do sonho e do ideal” dos cavaleiros neocruzados. Fiel a ela, o poeta transfigura rapidamente a realidade empírica:
“Cabeças a rolar ao som de tristes músicas,/ Que entoa a viração, e a humanidade em vez/ De tremer disto, trema ante um quadro mais horrido/ E mais cruel talvez”. ... “Os vencidos, em alas,/ Fitam os astros, que derramam galas/ pelo céu glorioso”. (XV “Os prisioneiros”). (MANGABEIRA: 1929; 291).
O desempenho mais que razoável do poeta na estética híbrida de simbolismo e parnasianismo está muito bem comentado por José Paulo Paes.
É admirável a “centralidade da mãe” nos poemas. Além da referência constante ao abandono ou saudades dos soldados por suas mães, o jovem poeta conclui sua obra com “Mater”
Tal dedicação materna contrasta com a correspondente onipresença paterna no poema de Mares de Souza. Importa aqui a confluência de ambos sobre o mesmo eixo da utoridade familiar, embora o texto de Mangabeira aponte para uma outra conotação ideológica, a do primado e supremacia do saber afetivo para os humanos.
Em ambos os casos, os autores exageram na relação afetiva, realizam um excesso incestuoso, o que pode funcionar como metáfora do assunto tomado para poesia. A brisis está na violação das normas sociais pelo grupo massacrador da mesma forma que o derramamento afetivo dos poetas nos seus textos.
Uma acentuação dos elementos da tragédia em outros significantes fora dos limites do texto literário, partindo de indicações, índices desse mesmo texto, poderá levar à identificação de chaves de leitura proveitosa para sua re-significação. No curso da pesquisa, tenho buscado verificar como elementos dispersos, se insistidos como significantes de uma mesma cadeia, porque solidários na vivência empírica, se lêem mutuamente.
Desse modo, não se pode desprezar o fato de o mesmo Francisco Mangabeira intitular sua tese na Faculdade de Medicina, no mesmo 1900, de Impedimentos de casamento relativos ao parentesco. MANGABEIRA:1900). Seu biógrafo Almachio Diniz escreverá também um romance sobre Canudos, Amén, lamentavelmente perdido. O mesmo Almachio Diniz escreverá Eterno Incesto.
Uma leitura de A foragida como narrativa de guerra permite ver-se nela outro enredo: o vencedor-vilão burla o pai da presa fugida, rouba o resgate-dote do filho, tenta violentar a presa e é escorraçado. O pai-avô recobra o dom da vida pela ajuda do pai da prometida e do noivo; este, o neto homônimo, recebe a noiva, resgatada pelo pai postiço, num jogo de doação a si mesmo. Ph. Rospabé traça a equivalência entre o dote e o sangue derramado em Ce que veut Donner veut dire. (ROSPABÉ: 1993).
A foragida reproduz, em miniatura, toda uma “narrativa possível” de conflito e aliança, em que se troca sangue fértil por sangue derramado, mulheres por dotes ou por ofensas havidas, tornando possível a reprodução de sociedades contingentes e inamistosas. Destaque-se, contudo, que a animosidade é mitigada pelo poeta sertanejo em favor de ganhos civilizatórios: em lugar da vingança, a aliança sublimadora e condenação explícita pela História. À barbárie trazida pelo exército da modernidade republicana, o poeta sertanejo responde com valores éticos da civilização religiosa conservadora. Digo aliança sublimadora, porque o noivo destinatário da presa de guerra também “sentara praça”, como o falso pretendente, ambos são desertores, sendo que o noivo recebe a marca positiva de conselheirista. Já a transmissão do dom - a noiva –dá-se de pai para simulacro de pai: Assunção é o nome tanto do avô, pai postiço da foragida, como do neto, seu noivo, chamado insistentemente de filho. O pai renuncia à posse da filha, mas a entrega, ainda assim, a um sucedâneo do outro pai, o filho-neto homônimo deste. O bom soldado merece sua presa. Troca assim o filho pela filha, mas a entrega simbolicamente a si mesmo. O incesto permanece.
Outro veio é o da imagética recessiva nas várias obras – frise-se – de desenvolvimento anterior a Euclides. Os dois poemas e outros textos anteriores a Ossertões desenvolvem figuras veiculadas ao errante (omitindo-se “condenado à servidão”), ao judeu errante, desertos com seus leões furiosos, serpentes, touros bravios e às ruínas. Um outro ponto a examinar é o das interpretações e das presunções literárias: o desejo de poetizar Canudos.
A escolha vocabular para o tratamento dos personagens é também indicativa das posições dos “narradores”. Mares de Souza recusa-se a empregar o termo “jagunço” para os seguidores de Conselheiro, numa atitude crítica e rigorosa somente encontrável em Cezar Zama, no seu Libelo republicano.De modo idêntico, Mangabeira utilizará o termo “fanático”, ainda que na voz emprestada aos republicanos impinja os piores atributos aos belo-montinos. Já Euclides endossa o étimo jagunço, estendendo-o até às crianças, a exemplo de seu próprio “jaguncinho”, levado para São Paulo e doado a um amigo.
Ao escrever sua Tragédia épica, além de identificar o massacre de Canudos com a dimensão cognitiva do trágico, que mais pretende significar Mangabeira? Qual a presunção interpretativa dele e de Mares de Souza? Interpretar a Guerra particularizada de Canudos, a instituição da guerra, a moralidade desta guerra ou algo mais? Onde se diferenciam de Euclides na presunção interpretativa? Interpreta-se também o projeto de nação? Como em Euclides, produz-se uma projeção racial-histórica?
Importa marcar como diferentes as três posições, ainda que todos, se unam no projeto nacional. Mares de Souza apresenta o ressentimento e a negação de esquecimento, ainda que se fixe na maldição. Em Mangabeira, a mãe recrimina o filho herói, encarnando-se em mãe única de vivos e mortos. Em lugar da inverossimilhança destacada por José Paulo Paes, melhor será ver o caráter trágico de “Mater”, poema final: “Porque lutaste com irmãos, e escuta:/ À tua glória eu me desfaço em pranto...”. E adiante, “....Ai! Que irrisão! De um desespero imenso/ Cruas lanças o peito me estertoram/ Porque, se beijo a tua fronte, penso/ Que enquanto me bendigo, muitas choram”.(MANGABEIRA: 1929, 327-331) Já a “Nota preliminar”de Euclides dissolverá a culpa na impassividade da história, dando por extinta ou em extinção aquela “raça retrógrada”.
Outra vertente para uma re-situação das obras será a da repercussão delas, enquanto atendimento de uma demanda interpretativa interessada por setores da sociedade. Deve-se o sucesso de Os sertões a uma novidade estilística e formal ainda não vista, à saturação maior de elementos estilísticos já em uso, expressão feliz das vozes em conflito ou também a elementos de ordem ideológica não puramente estética? No caso, a versão unívoca dos fatos – A “Nota preliminar”, o para-texto sobrepondo-se ao texto, não satisfaria o desejo das camadas dominantes, reforçando a tese de branqueamento do país e o ocultação do desprezo pelos excluídos, pelo Outro destinado ao desaparecimento, nunca assimilável como alteridade no nacional múltipo, mas apenas uno, incestuosamente idêntico a si mesmo? Não se suplementam exclusão presente e futura com silêncio e edulcoramento estético do passado recente?
Questões como estas incitam a apresentação de outras como o silenciamento de textos, inclusive os de bom padrão estético para seus críticos coetâneos, e sua releitura sob a ótica euclidiana. O outro silenciamento será o da constituição social dos vencidos. Ao representar especularmente nação e história, omitem a presença maciça dos “treze de maio” em Belo Monte e o que representava para eles em liberdade a promessa e a prática conselheiristas. Já Euclides diluirá a tensão transformando-os todos em mestiços retrógrados. O projeto de colonização por maior número de europeus já estava em curso e fundado teoricamente na Bahia desde a Independência (ALMEIDA:1835). O que se recusa destruindo Canudos é a inclusão na nacionalidade daqueles agora alçados à categoria de livres e cidadãos; inclusão incômoda, pois demandaria o abalo da estrutura fundiária e das bases políticas de sustentação da modernização excludente. Postos imaginariamente em extinção, inclusive por Euclides, os valorosos vencidos engrandecem o vencedor. Esquecimento das tensões sociais em conflito e estetização suplementam-se, mesmo no caso de simpatia pelo vencido e de denúncia do horror.
Trágico e épico indicam um lugar artístico em que se dissolve a questão ética do crime e da culpa. A quem mais perde na Guerra, Mangabeira dedica o poema final, incestuoso mas metáfora inversa à da exclusão do outro; dedica-o à Mãe.
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